Retrato
Gosto de janelas.
Gosto de lugares altos. Lá de cima o mundo fica pequeno. Gostaria de ter sido astronauta.
Piloto de avião, não, porque é chato. Prefiro aviãozinho de papel.
Gosto de bodoque. De canivete. De coisas que cabem no bolso e servem para muita coisa.
Quando era pequeno ficava no meu mundo com gibi, papel, prego e outras coisas transformáveis em outras coisas.
Aprendi a cozinhar fazendo sopa Maggi. Gostava de misturar coisas, os remédios do gabinete ou as comidas da geladeira.
Meu tempo sempre foi apressado, querendo ver hoje o que virá amanhã. Tenho uma agitação interior que me põe em estado constante de fazer e acontecer.
Gosto de satélite, de foguete, de chip de computador e raio laser. Gostava de desenhar, mas não tive paciência para aprender.
De criança reinadora e recolhida, virei adolescente hiperssocial. Mas continuo muito privado, desconfiado.
Meu pai dava apelido em todo mundo. E apesar de ser jornalista e lidar com os fatos da vida, na verdade ele é mitológico. Qualquer história ele põe mito, vira épico.
Tenho como hobby reconhecer sotaques. O castelhano portenho de Buenos Aires. O caribenho de Porto Rico e Cuba. O melódico e elegante espanhol colombiano. A linda mistura de fala indígena e espanhol dos mexicanos.
Sinto ternura pelo português gaúcho e pelo mineiros, que soam como pedidos de amizade verdadeira.
Ouço o inglês de Londres mesmo se não tiver interesse no assunto. Paro para escutar o inglês proletário do norte da Inglaterra. O inglês engraçado e rebelde da Irlanda. A sonoridade escocesa, que não sei explicar. Gosto de ouvir pessoas falando.
Me senti em casa na Inglaterra, um lugar que eu nunca quis ir. Eu não gosto de beber cerveja, mas faz todo sentido em pubs, porque ela Chama conversa.
O México também, eu achava que era um grande Sargento Garcia. Hoje vejo mexicanos como primos irmãos.
Fico pensando como, falando português, vários amigos que eu fiz pelo mundo foram italianos e gregos. Falam alto e são meio brasileiros.
Posso passar anos sem ver uma pessoa que amo, sem ter ligado nem mandado carta. Volto a ela e é como voltar ao último instante em que estivemos juntos. Não acho que isso seja bom nem ruim. Apenas é.
Estudei antropologia tardiamente. Um antropólogo norueguês usou o termo partial stranger para descrever quem é o antropólogo. Um estranho parcial. Alguém que está sempre no meio, parcialmente uma coisa e parcialmente outra bem diferente. Não sinto que eu pertença a lugar nenhum, exceto São Paulo. Isso é uma maldição e dá também liberdade, que é como o gás que faz os balões voarem.
A coisa que eu mais gosto no mundo, meu parque de diversões, minha caixa de areia, é conhecer grupos de seres humanos que vivem em mundos diferentes dos que eu conheço. Isso me faz acreditar em Deus e nos seres humanos.
Gosto de mistérios. De ver a beleza das coisas pelo microscópio e pelo telescópio. São mundos no mundo. A natureza mostra que Deus é um artista-cientista, como Leonardo.
Não gosto de barulho. Nasci com Tom Jobim e toda a MPB, aprendi a ouvir em cores. Me sinto autossuficiente musicalmente pelo que eles têm. Levaria a MPB para uma ilha deserta para não sentir tédio nunca.
Cresci achando que eu era uma dog-person. Hoje, quando eu durmo, três gatos estão ao meu lado, me protegendo de fantasmas e de sonhos ruins.
Depois dos 50 entendi que preciso fazer academia. Só faço porque eu pago. De outra forma, nem que me pagassem eu me submeteria à tortura monótona de levantar e soltar pesos.
Mas Lavar louça, que para alguns é monótono, para mim é meditativo. Vá entender.




Sugestão de um educador físico: abandone a musculação como remédio e procure um jogo/ esporte que lhe traga algum significado pessoal para incluir nese texto da vida