Como eu escrevo
Um curso inteiro de escrita a partir de um exercício simples: ler Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos.
Meu pai é jornalista, portanto, uma espécie de artesão da comunicação, alguém que vive de ser intermediário, comunicador, tecer redes de ideias e ser olhos e ouvidos da sociedade, uma tarefa paroquial que, quando feita direito, não precisa chamar a atenção. É melhor que não chame. O jornalista é uma espécie de ghost writer da sociedade; não apenas alguém que escuta e fala, mas que repete e refina uma arte, como em uma corporação de ofício que certamente existiu, associada talvez à dos gráficos e de escritores mais amplamente.
Soa pretensioso falar em “esculpir com palavras”? Grandiloquente de uma maneira que o texto jornalístico não quer ser? Argumento que não, por saber que fui treinado pelo método da escultura, da escrita como escultura, com dimensões, profundidade, ângulos. Você pode — e assim fazem alguns leitores — virar o ângulo do texto, contemplar sua espacialidade, seu desenho que, assim como os alfabetos de origem semita, ou como o japonês e o chinês, são também expressões plásticas. Mesmo no alfabeto romano a arte tipográfica conversa — os sábios identificam — com o espírito do texto, seu assunto e como ele se materializa em palavras, frases e marcações.
E isto que digo aqui não é filosofia, é prática que talvez a geração imediatamente seguinte à minha perderá, assim como fazer cálculos manualmente é uma arte que perdeu a importância comercial com o surgimento de ferramentas de computação. A inteligência artificial tornará a escrita algo que demanda menos esforço, e essa energia então irá para outras frentes criativas. Assim como monges copistas tiveram sua obsolescência decretada por Gutenberg, a pessoa de letras — aquela que se alegra e se diverte juntando palavras e sentidos — será engolida pelo mar do tempo e estará disponível apenas para arqueólogos do tema.
Então, para esses arqueólogos, registro aqui, da forma como fui ensinado, a técnica com que aprendi. Tive a sorte de ter um jornalista dentro de casa, então isto, no meu caso, é algo mais antigo do que pode parecer; porque tive em casa um mestre do ofício que me acompanhou, observando tudo, comentando algumas coisas. Não foi exatamente que eu tenha querido fazer aquilo, mas que aquilo e eu nascemos e crescemos juntos, porque quando eu nasci ele já era jornalista.
Alguns dos momentos de euforia interior que tive na infância, de alegria e regozijo, foram acompanhando meu pai nos plantões de sábado nO Estado de S. Paulo. Um lugar com muitos jovens divertidos e um pouco diferentes da média, que tomavam muito café e fumavam, e que habitavam um ambiente com um som — o som do peso do dedo da mão atacando com força controlada, em alta velocidade, a partir de técnicas mais ou menos formais de datilografia, de forma precisa, uma sequência de botões que acionavam manivelas que agrediam literalmente uma cinta de pano embebido em tinta contra um papel amarelado, de baixo custo, com marcações no entorno para localizar o conteúdo. Uma máquina em plena atividade soava com o padrão de uma metralhadora; a redação inteira junta parecia uma colmeia de abelhas fabricando. Não direi mel, porque supostamente o bom jornalismo é sempre um pouco amargo, como Campari.
Mas ao leitor que insiste em dar ouvidos a este conversador que, talvez, soa como o convidado ligeiramente bêbado em jantares familiares — que se dá muita importância e já não percebe que fala alto —, entrego o que prometi.
Tinha 20 e poucos anos e já exibindo interesse pelo ofício; havia cocriado uma revista estudantil e um programa de rádio sobre música do mundo. Já tinha provado o fruto do pecado que são livros bons, no meu caso especialmente a safra dos distópicos: Kafka, Huxley, Orwell e Camus. A instrução veio seca como o estampido no jogo de sinuca. Ele disse: leia Memórias do Cárcere. Não pela história contada, mas pela técnica de escrita. Graciliano não tem “estilo”, ele apenas escreve com precisão, o máximo de sentido e clareza por centímetro quadrado de texto. Leia cada frase e tente reescrevê-la de outro modo na sua cabeça; tente fazer melhor do que ele. Vire a frase do avesso, reorganize as palavras como quiser, apenas tente e veja se consegue. Nunca consegui. Mas o esforço se tornou costume. É assim que leio qualquer coisa, reescrevendo mentalmente cada frase. É uma espécie de maldição.
Mas, como acontece em todo aprendizado — conforme a antropóloga Jean Lave, que estuda aprendizagem, teorizou —, resulta de um desejo de imitar, de fazer igual, de ocupar o mesmo espaço no futuro, de ser capaz de observar a escrita como um artesanato fino, que pode ser feito trançando elegantemente fios delicados de informação a partir de padrões. Outras pessoas, mesmo escritores, não pularão para dentro dessa proposta, que tem Graciliano como papa — o escritor que não conseguiu se conter, me dizem, e editou Camus ao traduzi-lo para o português. É a meta: frases curtas, com sujeito, verbo e predicado, aquilo que também foi a arte que fez de Hemingway jornalista e escritor, ou melhor, que fundiu o método jornalístico com a maneira de dizer. Breve, direto, simples, fluido, que mostra ao leitor, como um cineasta, a cena que precisa, a que pede, como em uma corrida em que o bastão vai sendo passado de parágrafo em parágrafo, frase em frase, palavra a palavra. Arte dominada por cronistas brasileiros — Rubem Braga, Vinicius, Carlos Drummond e, no limite do poder, Pedro Nava.
Outra lição de meu pai: leia, porque só escreve quem lê. Ler deve ser como, para o atleta, a corrida diária, o exercício para o corpo todo; ler é para quem já está nas faixas superiores, acima da roxa, para quem elege a escrita como algo mais do que útil em sua existência diária. Ler é mais do que distração, mais do que se aprende com o que o autor diz. Ler é um treinamento ao vivo e a cores — você está sempre em contato com a oficina do autor, o efeito que uma palavra tem, o ritmo das frases, sua musicalidade e capacidade de encantamento que, para mim, pode soar como uma composição minimalista, em que o ritmo e a repetição estão em atrito contínuo com pequenas dissonâncias de sentido, de ritmo — talvez o próprio ato de escrever como a ruminação que a inteligência artificial replica inconscientemente.
Pessoas com dislexia — como é o meu caso — acreditarão que a leitura e a escrita não são para elas, como eu já pensei, até descobrirem o prazer preciso de ler Graciliano Ramos e ver que ele esculpe formas em vidro, um arabesco que, se for lido em voz alta, o ouvinte que não conhecer a língua notará a ladainha, a cadência, e como esse padrão é ao mesmo tempo simples e sofisticado, encantador também visualmente para quem observar a frase como uma espécie de desenho.
Leia, então, por prazer, por hobby, por desejo secreto, por obsessão. Leia do seu jeito, encontre a sua turma, vá brincar na rua com eles, vá à vizinhança de Cortázar, de Pessoa, como eu fui. Se tiver coragem — eu não tive — passe tardes conversando com Clarice. Saia para tomar um conhaque com Caio Fernando. E se quiser correntes profundas, procure Guimarães Rosa. Invada a América para acampar nas estantes com Steinbeck, Carson McCullers, Flannery O’Connor e Lucia Berlin; no campo da poesia, E. E. Cummings, Robert Frost, William Carlos Williams.
De algum modo misterioso, conversar com essas pessoas pelos livros que elas nos legaram é ser contaminado por suas formas de ver e de dizer. Significa ser recorrentemente apresentado a maneiras de contar. Estar perto dessas pessoas significa, canibalisticamente, comer seus corpos para incorporar a essência de quem elas foram.
Vou terminar por aqui, agradecendo ao leitor paciente que veio para esta conversa de bar, honesta e despretenciosa. Esta não é a única forma de aprender a escrever, é a que funcionou para mim.




Baita texto! Achei-o inspirador.
Adorei seu texto. Filha de jornalista, como você, aprendi a ler muito cedo tentando decifrar as manchetes do jornal que meu pai trazia de madrugada e deixava na porta do quarto dele, ainda cheirando à tinta. Eu tinha uns 4 anos e aprendi com ele a curiosidade e a paixão pelo conhecimento. E pelas viagens para conhecer o mundo.
Mais tarde, quando eu viajava para o exterior, era praxe trazer pra ele os jornais do dia do último país visitado. Mesmo sem entender a língua, ele passava a vista pelo jornal, pela diagramação, pela ocupação das páginas. Mais tarde, aposentado, lia o Estadão de Bic na mão, realçando todos os erros e melhorando a redação das legendas.